Saturday, 7 January 2017

O Ocultismo Fascista de Dugin e o sequestro da Esquerda anti-imperialista e do Islã não-salafista

A complete Portuguese translation of my February 2016 CounterPunch article on Dugin. The translation was made for the Portuguese Facebook list, Esquerda Illuminista, and can be found here.

O Ocultismo Fascista de Dugin e o sequestro da Esquerda anti-imperialista e do Islã não-salafista

Por WAHID AZAL

Em seu texto de Setembro de 2015 na CounterPunch, “Um Novo Capítulo no Fascismo Internacional”, Alexander Reid Ross destacou a situação do Fascismo Internacional nos últimos tempos, ressaltando o papel do fascista e teórico russo da Quarta Teoria Política (QTP) Alexander Dugin e suas redes de apoio.

O que não é muito abordado sobre a situação das atividades das redes duginistas, especialmente nas mídia social, é seu esforço de recrutamento ativo entre a esquerda, bem como entre grupos islâmicos anti-Salafistas, tanto Xiitas quanto Sunitas, notavelmente entre os apoiadores do Eixo de Resistência.

Ao invés de uma aliança legítima, essa sucessão de eventos é sem dúvida uma tentativa de corrupção por trás das cortinas realizada por agentes de poder que poderiam quebrar (ou de alguma outra forma neutralizar) uma frente unida contra o Imperialismo a partir da base, redirecionando para fins sinistros.

Aqui uma faceta, até então ignorada, desta questão será abordada (uma característica fundamental nas entrelinhas da ideologia duginista abrangente “além de esquerda e direita”); isto é, a apropriação duginista de um princípio do ocultismo ocidental (e especialmente da perspectiva da Magia do Caos) e sua transformação pelos duginistas em uma estratégia de ação política a serviço do Fascismo Internacional.
ATÉ QUE PONTO VAI O TRADICIONALISMO DE DUGIN?

Muitas discussões em torno de Alexander Dugin expuseram suas vastas, por vezes contraditórias, influências, narrativas e trajetória ideológica.

Por exemplo, o “Tradicionalismo” ou “neo-Tradicionalismo” de Dugin – isto é, sua adesão às ideias do muçulmano sufi francês convertido René Guénon (falecido em 1951) e do italiano Julius Evola (falecido em 1974) – foi detalhada por Mark Sedgwik e outros (ver “Sedgwick’s Against The Modern World”, 20014, capítulo 12).

No entanto, ao menos nos últimos anos, o Tradicionalismo de Dugin demonstrou-se superestimado, já que seu fanático (quase messiânico) heideggerianismo – diante do repúdio, muitas vezes hostil, vindo de figuras eminentes da Escola Tradicionalista seguidora de Martin Heidegger -, aparentemente foi rejeitado pelo meio neo-Tradicionalista.

Os comentários feitos em um dos primeiros capítulos de seu livro de 2014, “Martin Heidegger: A Filosofia do Outro Começo” (2014: 18), em que Heidegger foi elevado por Dugin ao status de uma figura escatológica equivalente ao profeta do Islã, apenas reforça esses pontos de vida negativos sobre Dugin ser “anti-Tradicionalista” realizado por neo-Tradicionalistas contemporâneos.

Assim o suposto Tradicionalismo de Dugin, usado para ser um ponto atrativo em sua biografia, não é uma característica confiável a ser considerada acriticamente pelo seu valor nominal.

Se ele foi alguma vez no passado, hoje Dugin não é mais um neo-Tradicionalista em qualquer sentido do termo, o que torna o uso e apropriação do termo pelos acólitos nacionalistas brancos de Dugin, tais como Matthew Heimbach, sem validade.

Portanto, continuar a discutir ideias e posições atuais de Dugin à luz do Tradicionalismo Guénon-Evoliano seria enganoso, porque ele nos últimos tempos move-se na direção oposta, a qual alguns neo-Tradicionalistas provavelmente caracterizariam como “correntes contra-iniciáticas” ou “contra-tradição”.

MAGIA DO CAOS COMO A VERDADEIRA VISÃO DE MUNDO DUGINISTA
As ideias misantrópicas do ocultista e satanista britânico Aleister Crowley (falecido em 1947) informam tanto sobre a visão de mundo duginista quanto sobre suas práticas contemporâneas.

Inclusive, é na visão de mundo da Magia do Caos especificamente (que é uma cria da filosofia Thelêmica de Crowley) onde grande parte dos paradoxos e contradições da perspectiva duginista – e especialmente em sua abrangente Quarta Posição de “além de direita ou esquerda” – deve ser procurada, uma vez que esta é (de forma intencional ou não) a essência da prática duginista de extrema direita, começando com sua escolha de simbologia, ou seja, sua bandeira Eurasiana de oito raios brancos ou amarelos (ou setas) em forma de um padrão radial com fundo preto.

Este símbolo é repetidamente mencionado na Magia do Caos como a “roda do caos”, “o símbolo do caos”, “armas do caos”, “as setas do caos”, “a estrela caótica”, “a cruz caótica”, “a esfera caótica” ou “o símbolo do oito”. 

Lembrando um pouco da Sociedade Thule e da apropriação realizada por Hitler da suástica dos escritos de H.P. Blavatsky (falecida em 1891), fundadora da Sociedade Teosófica, Dugin deriva seu projeto a partir da popularidade dos magos do caos ocidentais durante as décadas de 70 e 80, eles mesmos por sua vez se apropriando da obra de ficção científica e fantasia britânica escrita por Michael Moorcock.

Deve-se notar que tanto o número oito como a cor preta tem um papel fundamental na simbologia nazista / extrema-direita, para não mencionar que a “roda do caos” mantém semelhanças marcantes como a bem conhecida “roda do sol”, símbolo usado pela SS e por muitos neonazistas atuais (e também o símbolo dos falangistas espanhóis).

Em sua defesa, Dugin provavelmente afirma que o número oito também detém correspondências importantes dentro do Cristianismo esotérico onde ele se refere a Cristo. No entanto, sua óbvia (ou duvidosa, certamente) escolha da “roda do caos” ao invés da cruz tende a refutar essa afirmação. Além disso, sendo um nacionalista russo autoproclamado, não está claro exatamente porque Alexander Dugin iria escolher o seu principal símbolo a partir de fontes localizadas na tradição do ocultismo britânico ao invés da Rússia ou, nessa questão, do Cristianismo Ortodoxo Oriental que ele alega aderir.

Esse ponto por si só, acreditamos, reforça ainda mais as alegações sobre o antitradicionalismo de Dugin, enquanto o localizamos simultaneamente em um universo completamente diferente daquele ao qual ele afirma estar representando.

De qualquer forma, esse tipo de comportamento por si só seria bastante consistente com a diretriz básica da Magoa do Caos sobre a maleabilidade de todas as crenças e sua flexibilidade como ferramenta nas mãos do mago caótico.

Aqui está a nietzcheniana “Vontade de Potência” que é a principal motivação do mago sombrio tornada ativismo político.

Partindo disso, a próxima fórmula significativa da Magia do Caos é a de contínua mudança de paradigma ou constante alteração arbitrária de crenças, onde posições contraditórias tornam-se simultaneamente o método de auto-realização e compreensão da “coincidentia oppositorum” fundamental a todos os fenômenos.

Como prática espiritual, são inúmeras as correlações e comparações que podem ser feitas com esta ideia específica nas muitas tradições em todo o mundo (ou seja, taoísmo, sufi, tântrico, Zen, hermetismo, etc), e portanto é algo por si mesmo neutro. No entanto com Dugin e seus acólitos a questão não está ligada especificamente a uma prática espiritual e sua realização em si, mas é puramente sobre a prática política e a “Vontade de Potência” na sua forma mais crua.

Em outras palavras, para Dugin o laboratório alquímico e a “ars operativa” não reside em si mesma, mas sim no mundo e no teatro da política, onde os atos do mago sombrio para a imanência da escatologia representaria a inversão de todos os valores. A Pedra Filosofal para Dugin é desta forma poder dele sobre o mundo, e não sobre si.

Isso, juntamente com outras características do seu pensamento, é o que explica o paradigmático e abrangente “além de esquerda e direita” usado pelos duginistas. É o que também faz o Duginismo particularmente perigoso como uma ideologia e um movimento.

Em outras palavras, nesta visão onde Magia do Caos age como valor ideológico mobilizador, princípios ocultistas são feitos para atender a um programa político fundamentalmente fascista.

Alguns dizem que isso é uma forma de Satanismo e ainda uma manifestação da própria modernidade e “materialismo ocidental” que Alexander Dugin afirmou-se contra.
Indiscutivelmente, tudo aquilo que Dugin diz criticar e distanciar-se, o Nacional Socialismo de Hitler afirmou a mesma coisa – animado também, como era, por quase idênticos valores ideológicos e motivações.

Dito isto, René Guénon alegou a respeito de Blavatsky e sua Sociedade Teosófica que durante o século XIX e início do Séc XX foram essencialmente um cavalo de troia colonialista colocados pelos serviços secretos britânicos imperiais, a fim de se infiltrar e perturbar a tradicional subcultura religiosa do subcontinente (ver seu “Teosofia: A História da Pseudo-Religião”, 2004).

Diante das redes de Dugin no Irã, Libano, Síria e em outras partes do mundo islâmico, para não mencionar a Europa Oriental, não é totalmente fora do reino das possibilidades de que padrões similares e incentivos podem estar motivando e fundamentando a agenda de recrutamento de duginistas, onde o próprio Dugin pode ser visto como uma nova versão de Blavatsky com suas redes a suceder o cavalo de troia imperial britânico.

Certamente, sua tentativa de derrubar o já fragilizado espectro esquerda-direita na Europa, busca recrutar para a extrema direita de forma mais adequada uma vez que a retórica reacionária e inequivocamente racista sobre a crise de refugiados, no fim das contas, desafiaria as alianças que fizeram dentro do mundo islâmico com iranianos, iraquianos, libaneses, sírios e outros setores do Eixo de Resistência.

RÚSSIA, A CRISE DE REFUGIADOS EUROPEIA E A GEOPOLÍTICA DUGINISTA DE EXTREMA DIREITA EM AÇÃO
Agora, o papel instrumental da OTAN no colapso do Estado líbio em 2011; a guerra síria que está entrando em seu quinto ano; Estado Islâmico; Ucrânia e, acima de tudo, a crise europeia de refugiados parece ter fornecido aos duginistas uma rara oportunidade de explorar divisões existentes decorrentes entre as facções da esquerda ocidental, bem como ativistas na própria comunidade muçulmana, a fim de recrutar esses grupos.

Isto é especialmente evidente nos últimos pontos de discussão adotados por numerosos especialistas progressistas e de esquerda, que aparecem regularmente na RT (Russia Today) e em outros meios de comunicação alternativos, onde suas posturas anti-guerra geralmente consistem no que diz respeito à Síria especificamente (e imperialismo ocidental em geral) e, de forma paradoxal, tem uma mistura de narrativas reacionárias sobre a crise de refugiados.

Em suma, temos uma situação em que certos progressistas (e até alguns muçulmanos) adotaram a retórica kulturkampf de supremacia branca contemporânea de fascistas e companhia que vitimiza em grande parte os imigrantes e requerentes de asilo do Oriente Médio e Norte da África na Europa, e onde a histeria de direita sobre uma ameaça à “cultura europeia” e “seu modo de vida” é acriticamente repetida em diferentes graus, como um papagaio.

Ao passo que alguns culpam a política do Estado russo pelos eventos recentes, o ponto de vista deste autor é que tal rumo de acontecimentos acaba por beneficiar da agenda do próprio Imperialismo ao invés da Rússia especificamente, de tal forma que estes duginistas podem de fato ser pastores de uma longa iniciativa anglo-americana atlantista em vez de especificamente russa. Seja como for, abundam rumores de que o Estado russo tem sido um doador generoso (e em alguns casos, até mesmo abertamente por períodos prolongados) de grupos fascistas/extrema-direita como o Jobbik na Hungria e o Aurora Dourada na Grécia.

Desde 2014, na Alemanha, por exemplo, a AfD (Alternative für Deutschland / Alternativa para a Alemanha), o NPD (Nationaldemokratische Partei Deutschlands / Partido Nacional Democrático) e PEGIDA (Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes / Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) são acusados de ter recebido apoio financeiro de Moscou como um meio de desestabilização de Merkel e do centro alemão, que eram atores-chave nas sanções impostas à Rússia após sua anexação da Crimeia, em Março de 2014.

Da mesma forma é feito com a Frente Nacional de Le Pen na França. Certamente muito do ufanismo anti-imigração/anti-refugiados publicados regularmente nas páginas da Russia Today a partir deste período tende a apoiar as alegações.

No entanto, mesmo com isso, não está claro exatamente como essas políticas podem estrategicamente beneficiar a Rússia de Putin, a longo prazo, uma vez que estas mesmas forçar que a Rússia aparentemente suporta neste momento poderiam facilmente se unir no futuro com seu rival geopolítico anglo-americano e contra a própria Rússia, como o caso da Ucrânia demonstrou amplamente.

Certamente pode-se dizer que a Rússia e os atlantistas anglo-americanos estão competindo usando marionetes de extrema direita contra os interesses uns dos outros como forma de guerra assimétrica, com a Alemanha como um dos campos de batalha chave e a questão dos refugiados como eixo. Mas então isso tenderia a indicar algum tipo de divisão no fascismo internacional ao mesmo tempo, explicando a razão para os esforços de recrutamento agressivos empreendidos pelos duginistas (especialmente entre os muçulmanos e esquerdistas desiludidos sem um lar) nas mídias sociais e em outros lugares.

Todavia, na Grécia, por exemplo, não foi com o Aurora Dourada, mas com o Syriza que Dugin pessoalmente investiu mais tempo, e o papel do Syriza, durante 2015, de um consenso amplo e fraturado entre a esquerda anglo-europeia tem sido inegavelmente crítico.

Muito mais poderia ser dito, mas qualquer que seja a retórica giratória de duginistas entre as comunidades ativistas para muda-los por dentro, nos seus próprios méritos duginismo não é nem autenticamente anti-imperialista nem genuinamente titular de quaisquer valores de esquerda. Nem, caso importe, é Tradicionalismo.

Em vez disso, de todas as perspectivas o duginismo realmente representa uma cortina de fumaça do separatismo branco fascista, que é mais uma permutação ideológica da supremacia branca euro-americana que se organizou em movimento.

A própria definição distorcida de Dugin da Eurásia, onde neste esquema significa simplesmente a massa de terra horizontal entre Vladivostok e Lisboa (e onde toda a Ásia central está categoricamente excluída) reforça o fato.

Como tal, os perigos sedutores apresentados pelo duginismo e sua rede a qualquer frente unida contra o Imperialismo, entre a esquerda anti-imperialista e muçulmanos anti-salafistas, não podem ser subestimados.

- Wahid Azal é um pesquisador independente e comentarista político de Berlim, Alemanha.